SUPERANDO TODOS OS LIMITES NA CAMINHADA PELA HAUTE ROUTE

As andarilhas partiram para um novo desafio, a Haute Route, uma caminhada de seis dias saindo de Verbier e chegando a Zermatt.

Normalmente vou escrevendo e mandando reports dia a dia, mas dessa vez chegava nos hotéis tão cansada que não conseguia escrever nem uma linha. Por isso escrevo agora, tão tarde, pois acho que vale a pena contar todas as aventuras que vivemos. Nos encontramos sábado em Verbier, 8 brasileiras, 4 suíças, a Susanna no comando de mais dois guias e o Marco, sobrinho dela, sempre nosso fiel e gentilíssimo escudeiro nessas terras estrangeiras.

No domingo, saímos a pé de Verbier, subimos pela estação de esqui, contornamos o morro e já testamos as botas novas, além das pernas e da ansiedade para chegar na cabana Mont Fort onde passaríamos a noite. Por isso, levamos na mochila tudo que necessitaríamos no dia seguinte, o que acabou sendo uma grande lição de desprendimento e escolha, afinal, poderíamos levar apenas o que precisávamos e conseguíramos carregar morro acima.

Nossa cabana era no alto das montanhas, simplesmente deliciosa! No inverno, funciona apenas como restaurante da estação de esqui, enquanto no verão serve de pouso para quem quer se aventurar pelos morros da região. Dormi em um quarto onde cabiam seis. Era uma cama simples com beliche e outra de casal, também beliche. Não havia calefação, mas o local era quente e tinha luz elétrica.

O banho (no fim do corredor) era pago: bastava colocar algumas moedas em uma máquina e ganhar o direito a dois minutos de água. Optamos todas por usar lenços umedecidos, gentilmente cedidos pela Bebel. Originalmente, passaríamos uma noite na cabana Mont Fort e a seguinte em outra, três cumes mais acima. Como neste ano as montanhas ainda estão muito cheias de neve, nossos guias não acharam seguro e mudaram nossos planos.

caminhada pela haute route era difícil suiça
Era difícil fazer a caminhada

Em vez de seguirmos por cima, resolvemos contornar por baixo, o que nos rendeu um dia com 22 km percorridos, 90% deles para baixo, o que, obviamente, não é simples por causa dos joelhos.

Chegamos a um cable car, com uma alegria indescritível e os pés moídos. Umas estavam sem as botas, outras com muita dor nos joelhos e outras ainda com os pé lotados de bolhas. Descemos o bondinho e encontramos a van do Marco que nos levou a uma cidadezinha chamada Saillon, onde dormimos.

Nosso terceiro dia começou com um sol lindo, que aquecia a alma e as pernas temerosas, depois da meia maratona que tínhamos feito no dia anterior. E começou com subida, uma enorme subida, que parecia não ter fim.

O guia não expressava nenhum sinal de que queria parar e ia andando num passinho lento, mas infinito. E assim fomos, aprendendo a seguir o ritmo daquele homem meio mal-humorado, que não acreditava na capacidade daquelas 14 mulheres para enfrentar o que estava por vir. Nessa subida encontramos vacas de briga, que por mais incrível que pareçam, existem na bucólica paisagem suíça. Nosso guia começou a falar que estava com medo das vacas. Ao mesmo tempo que rimos, percebemos que ele falava sério e desviava o caminho para não dar de cara com elas – que são treinadas para competir com outras, tipo galo-de-briga mesmo! Era a adrenalina que estava faltando naquela subida interminável.

Perto da hora do almoço chegamos ao Col de la Meina, um cume a 2.702 metros de altitude, de onde conseguíamos enxergar o outro lado: a montanha que teríamos que descer para o nosso próximo destino. Comemos o sanduíche que tínhamos feito de manhã e de sobremesa, alguns chocolates. Lá fomos nós para mais algumas horas de caminhada até Evollene, onde encontramos Marco, que nos levou a Arolla. Era lá que ficava nosso hotel de estação de esqui, bem simples e antigo, mas, o suficiente para o que precisávamos.

O dia seguinte amanheceu chovendo, o que sempre deixa os ânimos meio estranhos. Mesmo assim, sem parar para pensar muito, lá fomos nós. O Marco nos deixou um pouco para cima da estrada e começamos a caminhar. Logo no começo, sem querer, o nosso grupo se dividiu. Uma parte foi na frente com o guia (que a essa altura já estava sendo chamado de teacher) enquanto o outro grupo ficou com a Prisca, namorada dele. Era outra montanha interminável, em um dia nublado, garoento e frio.

Chegamos ao cume a 2.919m, chamado Col de Torrent, e lá ficamos comendo nosso sanduíche e esperando o grupo da Prisca, que estava bem atrasado, já que tinham errado o caminho em algum momento.

As meninas chegaram exaustas e quase congeladas. Esperamos elas comerem bem rápido começamos a descida pela neve. Uma descida, aliás, que pedia muito cuidado, já que alguns lugares escorregavam bastante. Outros, no entanto, nos permitiam sentar na neve e fazer uma espécie de esqui bunda. Foi uma delicia, um relaxamento depois de momentos de muita tensão. Entrou neve nas minhas botas, molhou a minha calça, mas valeu a pena!

Nos divertimos como meninas no Paiol Grande, um acampamento famoso em São Paulo, exclusivo para crianças. Descemos até uma eclusa linda em Grimentz, onde encontramos Marco, que nos levou a St Luc para passamos a noite. Era um hotel histórico e cada quatro de nós ficou em um chalé com dois quartos, sala e cozinha. Me senti brincando de casinha com as amigas, foi o máximo!

No outro dia, mais uma montanha para enfrentar. Devíamos estar perto dos 70 quilômetros rodados e confesso que minhas pernas estavam bem cansadas. Mas quando eu pensava nas paisagens que apareciam ao longo do caminho, esquecia do cansaço e de qualquer preguiça que pudesse aparecer.

Era tudo tão lindo, além da sensação de fazer a pé um caminho que poucos se aventuram, o que me dava mais ânimo. Todas estavam encarando os próprios medos e enfrentando os próprios inimigos e todas venceram, dia a dia, pelo menos até ali!

Subimos bem devagar, seguindo os passos constantes do teacher, até um cume chamado Meidpass, a 2.790 metros. Comemos o sanduíche de sempre e descemos novamente pela neve, com um pedacinho que dava para fazer esqui bunda – ainda bem! Depois da neve, passamos por um pedaço com rochas, até chegarmos na linha das árvores, de onde avistamos a cidadezinha lá embaixo. Horas depois, chegamos a Gruben, em um hotel-albergue, com o banheiro no final do corredor, um banho bom e batatas fritas especialmente feitas por um casal de portugueses. Fenomenal!

Nesse dia, meus joelhos já davam sinais de que algo não ia bem. Coloquei gelo e achei que, no dia seguinte, talvez doessem um pouco durante a descida. Os dias sempre começavam com o despertador tocando às 6:30, café da manhã às 7:00 e pé na estrada às 8:00. Sabia que teríamos um longo dia pela frente, com muitas subidas e descidas, até chegarmos a um velho teleférico que nos levaria a Zermatt. Foi apenas dar os primeiros passos para sentir muita dor no joelho esquerdo. Isso, é claro, não estava nos meus planos, já que esperava a dor que me acostumei a sentir na descida, e com a qual eu sabia lidar.

Achei que não fosse conseguir, parecia que a cada passo enfiavam uma faca num lugarzinho bem acima da rótula. Comecei a rezar aos santos que nunca me deixam na mão, como sempre faço na hora do aperto.

E assim fui, rezando a cada passo e sem falar nada pra ninguém, porque aprendi que não adianta reclamar: não cura a dor e só contamina quem está por perto.

Os quilômetros foram passando e a dor, ainda bem, melhorando. Até que atingimos mais um cume, o Augstbordpass, a 2.897metros de altitude, lugar do último sanduíche nessa viagem. Quando começamos a descida, sabíamos que teríamos que cruzar por cima das montanhas para descer pelo outro lado,mas começamos a andar sem parar na mesma altitude, mais ou menos a 2.400 metros, por entre rochas e neve, e nada da descida começar. Passamos por precipícios nos quais o teacher nos prendia a algumas cordas. Depois, mais um monte de pedras e neves, tudo isso durante horas. Achamos que iríamos ficar ali andando em círculo, para sempre. Até que, no meio do caminho, surge uma trilha que parecia dar até ao velho bondinho. Dito e feito.

Cerca de 4 horas depois, chegamos ao teleférico que. Foi uma comemoração só, uma alegria imensa por termos completado a caminhada.

Mas tudo em meio a uma grande expectativa pelo dia seguinte, onde faríamos a subida do Breithorn, a 4.164 metros, um dos cumes mais altos da Suíça. Não seria uma caminhada tão longa, porque iríamos de gôndola até o cume do Klein Matterhorn que fica ao lado. De lá, andaríamos pela neve até o cume Breithorn. Mas era desafiador mesmo assim, pela altitude acima de 4.000 metros e pela novidade de usarmos grampões, aquelas garras que vemos os alpinistas colocando nas botas para grandes escaladas, em programas da TV.

E lá fomos, as 14 mulheres, para a loja de esportes alugar grampões. Os vendedores olhavam meio espantados, mas acho que já estão acostumados com gente meio maluca, afinal, no dia seguinte também teria ali a Maratona de Zermatt, com os corredores largando na parte baixa da cidadezinha e indo até o topo de alguma montanha. São 42 quilômetros de subida!

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Lá no topo!

O dia seguinte amanheceu lindo, sem nenhuma nuvem no céu e enquanto os maratonistas corriam, começamos nossa subida de bondinho até o início da nossa caminhada. Dessa vez, fomos divididas em grupos de quarto e cada grupo possuía um guia de escalada, que parecia preparado para nos levar ao cume do Everest, de tantas cordas e tralhas que carregava. As cordas nos prenderam umas as outras e, por último, a ele. Fomos andando em fila indiana, lentamente em direção ao pico. Parecia interminável de novo!

Quando colocamos os grampões achei um alívio. Ele te fixa na neve e não deixa seu pé escorregar, o que ajuda muito a poupar energia, principalmente a mais de 4.000 metros de altitude.

Duas horas depois, chegamos no ponto mais alto e tivemos uma visão indescritível: uma cadeia enorme de montanhas nevadas, com um céu azul e nuvens que se misturam a neve. Quando vejo um lugar assim, entendo os alpinistas e esqueço todas as dores que senti e o frio que passei ao me aventurar pelas montanhas mundo afora. Vale a pena! É a visão perfeita e um presente de Deus.

Comemoramos muito e começamos o caminho de volta. Na descida, fui na frente e o guia ficou por último. Foi fácil, apesar do joelho doer um pouco e de ter que sair da trilha a cada vez que alguém vinha subindo (obviamente quem está indo pra cima tem preferência).

Dessa vez não teve sanduíche e sim um almoço incrível, em um lugar florido, ao ar livre, chamado Zum See, algumas estações de bondinho mais abaixo. Agora sim festejávamos pra valer, tínhamos cumprido todo o planejado com louvor. As 14 mulheres que o teacher olhou com um pouquinho de desdém no primeiro dia receberam dele um sincero abraço de parabéns.

Foi engraçado porque nossa determinação e alegria foram mudando seu comportamento ao longo do caminho. Ele se tornou mais leve e brincalhão, mais doce com a namorada e me parecia mais feliz. Acho que alguns dias com essa mulherada divertida mudou um pouquinho esse suíço forte.

Caminhamos um total de 95 quilômetros, subimos 5.500 metros de altitude, descemos 5.300 e aprendemos que com treino, determinação e fé ninguém nos segura.

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