TRAVESSIA DO ALTIPLANO BOLIVIANO

Acordamos às 5:30 da manhã, em San Pedro de Atacama, para iniciarmos nossa jornada pelos Altiplanos Bolivianos até o Salar de Uyuni. Éramos em uma turma de fotógrafos curiosos e sedentos pelas imagens do Uyuni e mal sabíamos que a travessia seria um show a parte.

Feco Hamburger comandava a parte fotográfica, Jan Neumark com sua agência Viajan e nós, da Casa Neo10, cuidávamos de toda a logística. Era um ótimo time!

O dia prometia grandes aventuras e estávamos todos muito animados. Tomamos café da manhã em nosso hotel no Atacama, ganhamos uma lunchbox com o nosso tradicional sanduíche de abacate e queijo de cabra, nos instalamos em uma van e partimos rumo a aduana. A saída do Chile é feita na cidade, 60 quilômetros antes da fronteira. O asfalto também termina 5 quilômetros antes da aduana boliviana, uma estranheza que já nos dava uma amostra do que teríamos pela frente.

Os 4x4 prontos para a expedição bolívia
Os 4×4 prontos para a expedição

Margeamos o vulcão Licancabur em todo o trajeto e, ao chegar ao lado boliviano, fizemos a troca da van por carros 4×4, cada um com seu motorista e guia. Os guias Chilenos só vão até aquele ponto e os Bolivianos sempre esperam pelos seus clientes naquele lugar. O carimbo boliviano foi conseguido com muita tranquilidade e simpatia num espaço cheio de aventureiros, com seus carros empoeirados, mochilas surradas e sorrisos largos.

Partimos em direção ao nada, éramos 3 passageiros por carro, uma montanha de equipamentos, tripés e lentes para todos os lados. A sensação foi de cruzar um portal para outro planeta.

Depois de 4 dias no Atacama, já estávamos acostumados com a paisagem do deserto e sua vastidão, mas, na Bolívia, a falta de estradas e a ausência de referências, senão de montanhas, lagoas e pedras, te traz uma liberdade indescritível e ao mesmo tempo o medo de ficar ali preso entre o nada e a eternidade, num mundo árido mineral para sempre.

Altiplano Boliviano
Nosso carro e o deserto de Dali

Entramos na reserva nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa e nossa primeira parada foi o Deserto de Dali, que tem este nome graças a semelhança com os quadros do pintor surrealista. Pedras enormes no meio do nada parecem ter sido colocadas uma a uma, numa simetria que nem o mais realista dos pintores teria conseguido. E a cada curva alguém queria parar para uma foto por conta de algum ângulo inusitado. Descíamos todos, fotografávamos e lá íamos nós de novo rumo ao desconhecido boliviano.

Com os olhos brilhando frente a tamanha beleza e estranhamento, continuamos nossa aventura entre montanhas coloridas, sempre off-road, com o nosso guia fazendo as vezes de DJ, colocando uma trilha sonora impecável que ia de Pink Floyd a Matamba, um cantor de reggae boliviano muito bom.

Subimos a 5000 metros de altitude para visitar o Sol de Mañana, o lugar mais alto e mais estranho que já fomos. Com intensa atividade vulcânica e um parque sulfúrico cheio de lagoas de lama borbulhante, se tem a nítida impressão que a Terra acabou de se formar e que vivemos tempos paralelos na mesma existência. E nossas câmeras trabalhavam sem parar!

Seguimos viagem e paramos para almoçar em uma vila onde as mulheres jogavam futebol como se estivessem ao nível do mar, enquanto seus filhos de uns 3 anos assistiam, sentadinhos e impassíveis, a correria das mães. Ali, as lhamas se alimentavam com as gaivotas. Nossos guias e motoristas providenciaram um almoço incrível, mas muito simples, com frango, macarrão, salada e milho.

Assistindo o futebol boliviano crianças bolívia viagens
Assistindo o futebol boliviano

Nossa próxima parada foi a Lagoa Colorada, de um vermelho maravilhoso. A lagoa ganha esta cor devido a sedimentos e algas minúsculas que produzem caroteno, para se proteger da radiação ultravioleta. É habitada pelos Flamingos de James, espécie com penas brancas rajadas de rosa. As ilhas de bórax, onde o branco contrasta com o avermelhado das águas, tornam a paisagem única e absolutamente fotogênica!

As lagoas coloridas de Bolívia
As lagoas coloridas de Bolívia

E a nossa travessia continuou passando por várias lagoas, algumas brancas, outras verdes ou azuis, dependendo da composição mineral de suas águas – mas o comum entre todas elas é que são salgadas. Convivíamos com o pó que vinha dos carros que passavam esporadicamente ou dos nossos próprios, com uma tranquilidade como se tivéssemos nascido ali naquele fim de mundo porque a paisagem realmente não nos deixava pensar em mais nada. Aquele lugar era simplesmente inacreditável. Ninguém se preocupava com a situação dos cabelos, com a secura da pele ou com o tempo que faltava para a nossa chegada, pois só o que pensávamos era nas imagens e no quão diferente era esse momento que vivíamos.

Migração boliviana

Nos altiplanos bolivianos, a flora local constitui-se principalmente de pastagens que se elevam até o limite das neves (quinoa e coca são outras espécies locais importantes). Naquela altitude, nossos guias mascavam folhas de coca o tempo todo. Eles diziam que ajudava a enfrentar os quase 5000 metros de altitude e a travessia de 600 quilômetros, que costumava durar 10 horas e que eles fazem mais de uma vez por semana. Se funciona ou não, ainda não sabemos, mas faz parte da cultura local.

No meio da travessia, eles nos mostraram a llareta, um líquen que nasce agrupado nas pedras e que, segundo nos contaram, demora muitos anos para crescer alguns centímetros. É lindo, de um verde-claro encantador e com um perfume maravilhoso, além de serem usado há milênios pelos índios locais. Parecia mais um indício de que estávamos mesmo perdidos num mundo absolutamente esquecido, com plantas e pedras antiquíssimos e sem telefone, internet ou qualquer coisa do gênero.

Docter Bernardino Tranchesi Bolívia Viagens
Docter também participa

Depois de 12 horas de travessia, muitas paradas e um lindo entardecer, chegamos ao nosso destino, o Salar de Uyuni, maior deserto de sal do mundo.

E lá estávamos em nosso hotel, construído no meio do nada com tijolos de sal, aposentos simples, comida caseira e um povo encantador. Tínhamos a alma as câmeras repletas de imagens inesquecíveis.

Aguardem os próximos capítulos sobre o Atacama e o Salar.

 

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